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23 de setembro de 2014

Filme dos Dardenne é o candidato belga ao Oscar. Canadá escolhe Mommy de Xavier Dolan

O último trabalho da consagrada dupla de diretores, os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, foi o escolhido pelos belgas para tentar a sorte no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Deux Jours, Une Nuit, tem Marion Cotillard no papel principal.

O filme narra a história de uma trabalhadora de Liége que fica de baixa. Ocorre que alguém na empresa tem a ideia de provar que ela não era realmente necessária e oferece um bônus aos demais colaboradores para trabalhar mais e comprovar isso mesmo. Assim, resta a pobre moça os dois dias e uma noite do título para convencer os seus colegas a não aceitar o bônus.

Os irmãos Dardenne são absolutos na crítica e habituais no Festival de Cannes (onde este também estreou), evento que já lhes rendeu duas Palmas de Ouro.

Já o Canadá escolheu Mommy, o mais recente filme de Xavier Dolan que deu que falar em Cannes. No filme, Dolan volta a explorar o elo entre mãe e filho, tendo para a ocasião convidado os atores que tornaram famosos os seus filmes anteriores: Anne Dorval e Suzanne Clément, acompanhadas de Antoine Olivier Pilon. Já o Irão selecionou Emrouz, obra de Reza Mirkarimi que passou pelo Festival de Toronto. 

Todas estas obras juntam-se assim às escolhas da Áustria (The Dark Valle, de Andreas Prochaska), Bulgária (Bulgarian Rhapsody, de Ivan Nitchev), Chile (Matar a un hombre, de Alejandro Fernández Almendras), Montenegro (The Boys from Marx and Engels Street, de Nikola Vukčević), Taiwan (Ice Poison, de Midi Z), Ucrânia (The Guide, de Oles Sanin), República Dominicana (Cristo Rey, de Leticia Tonos), Estônia (Tangerines, de Zaza Urushadze), Finlândia (Concrete Night, de Pirjo Honkasalo ), Geórgia (Corn Island, de Giorgi Ovashvili), Japão (The Light Shines Only There, de Mipo Oh), Luxemburgo (Never Die Young, de Pol Cruchten ), Holanda (Accused, de Paula van der Oest ), Noruega (1001 Grams, de Bent Hamer), Peru (El evangelio de la carne, de Eduardo Mendoza de Echave), Venezuela (Libertador, de Alberto Arvelo), Turquia (Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan), Romênia (The Japanese Dog, de Tudor Cristian Jurgiu), Hungria (White God, de Kornél Mundruczó), Polônia (Ida, de Paweł Pawlikowski), Sérvia (See You in Montevideo, de Dragan Bjelogrlić), Croácia (Cowboys, de Tomislav Mršić), Nepal (Jhola, de Yadavkumar Bhattarai), Mauritânia (Timbuktu, de Abderrahmane Sissako), Alemanha (Beloved Sisters, de Dominik Graf), Afeganistão (A Few Cubic Meters of Love, de Jamshid Mahmoudi), Letônia (Rocks in My Pockets, de Signe Baumane),México (Cantinflas, de Sebastian del Amo), Hong Kong (The Golden Era, de Ann Hui), Suiça (The Circle, de Stefan Haupt), Eslovênia (Seduce Me, de Marko Šantić), Eslováquia (A Step Into the Dark, de Miloslav Luther), Coreia do Sul (Sea Fog, de Shim Sung-bo), Panamá (Invasion, de Abner Benaim), Paquistão (Dukhtar, de Afia Nathaniel), Marrocos (The Red Moon, de Hassan Benjelloun), Macedônia (To the Hilt, de Stole Popov), Lituânia (The Gambler, de Ignas Jonynas), Dinamarca (Sorrow and Joy, de Nils Malmros), República Tcheca (Fair Play, de Andrea Sedláčková), Colômbia (Mateo, de Maria Gamboa) e Portugal (E agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto).

18 de setembro de 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é escolhido para representar o Brasil no Oscar

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, do diretor Daniel Ribeiro, foi escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2015. O Ministério da Cultura escolheu o longa como candidato brasileiro ao prêmio de filme estrangeiro. A última vez que um filme nacional disputou essa estatueta foi em 1999, quando Central do Brasil, de Walter Salles, foi finalista.

“Ele [o filme] tem uma linguagem universal e tira um pouco dessa coisa de ‘filme do Brasil’, que dizem. É um filme muito sensível e pode trazer muitas vitórias”, disse a ministra da Cultura, Marta Suplicy, durante o anúncio do indicado nesta quinta-feira (18) na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Escolhido entre 18 candidatos por uma comissão do Ministério da Cultura, Hoje Eu Quero Voltar Sozinhoserá pré-indicado à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.

O filme conta a história de Leonardo, um garoto cego de 15 anos, interpretado por Guilherme Lobo, que procura ser independente em uma sociedade super-protetora. O jovem estudante do ensino médio se apaixona pelo amigo Gabriel (Fabio Audi), ao mesmo tempo em que desperta sentimentos pela colega Giovana.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, vencedor do prêmio da crítica no Festival de Berlim, fez uma forte campanha nos Estados Unidos com a distribuidora Strand Releasing e entrou em cartaz em circuito comercial.

6 de março de 2014

Briga do roteirista e diretor de 12 Anos de Escravidão vem à tona

Fonte: Pipoca Moderna

"Quem acompanhou o Oscar não pôde deixar de reparar na cara fechada do roteirista John Ridley e na forma fria como o cineasta britânico Steve McQueen comemorou a vitória do colega pelo roteiro de “12 Anos de Escravidão”. Agora que a cerimônia passou, a briga dos dois se tornou pública. Eles não estão se falando já há bastante tempo, por causa de uma disputa pelos créditos do roteiro do premiado drama escravagista. A informação é do site The Wrap.

A má vontade entre ambos começou quando McQueen, que teria feito mudanças no roteiro, requisitou ter seu nome incluído nos créditos da trama, o que causou repúdio de Ridley e foi parar nos escritórios de produção da Fox Searchlight Pictures. Nos dois longas-metragens anteriores de McQueen, “Hunger” (2008) e “Shame” (2011), o diretor recebeu créditos de co-autor do roteiro.

Desta vez, porém, o roteirista não aceitou compartilhar os créditos e ameaçou envolver o Sindicato de sua categoria. Fontes do site The Wrap afirmam que o clima entre os dois ficou tão tenso que chegou ao ponto de McQueen querer impedir que outras pessoas falassem com Ridley e ainda fazer com que o escritor fosse afastado do contato com a equipe do filme, sentando-se em mesas separadas durante as premiações.

Em certo momento, o ator e produtor Brad Pitt foi forçado a ficar no meio da briga, visando acalmar os ânimos pelo bem do filme. Afinal, caso a notícia da briga dos dois vazasse para a imprensa, isso poderia prejudicar as chances de “12 Anos de Escravidão” na temporada de premiações. Mesmo com o clima tenso, a história precisava ser mantida em sigilo até o Oscar. E seu esforço foi compensado com as vitórias na cerimônia de domingo (2/3).

Quando foi a vez de Steve McQueen subir ao palco para receber o prêmio de Melhor Filme, ele fez o mesmo e, abrindo uma lista interminável de nomes, não incluiu o roteirista em seus agradecimentos."

3 de março de 2014

Confira os Vencedores do Oscar 2014

Gravidade foi o filme mais vencedor da noite levando o prêmio em sete categorias, incluindo Melhor Diretor, Melhor Montagem e Fotografia. 12 Anos de Escravidão levou Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante. Trapaça recebeu 10 indicações e saiu da premiação sem levar nada, tornando-se um dos maiores perdedores do Oscar, junto com The Turning Point e A Cor Púrpura.

Melhor Filme
12 Anos de Escravidão

Melhor Diretor
Alfonso Cuarón por Gravidade

Melhor Ator
Matthew McConaughey em Clube de Compras Dallas

Melhor Ator Coadjuvante
Jared Leto em Clube de Compras Dallas

Melhor Atriz
Cate Blanchett em Blue Jasmine

Melhor Atriz Coadjuvante
Lupita Nyong’o em 12 Anos de Escravidão

Melhor Roteiro Adaptado
John Ridley por 12 Anos de Escravidão

Melhor Roteiro Original
Spike Jonze por Ela

Melhor Filme de Animação
Frozen – Uma Aventura Congelante

Melhor Documentário
A um Passo do Estrelato

Melhor Filme Estrangeiro
A Grande Beleza (Itália)

Melhor Trilha Sonora Original
Steven Price por Gravidade

Melhor Canção Original
“Let It Go” de Frozen – Uma Aventura Congelante

Melhor Montagem
Gravidade

Melhor Fotografia
Emmanuel Lubezki por Gravidade

Melhor Figurino
O Grande Gatsby

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Clube de Compras Dallas

Melhor Design de Produção
O Grande Gatsby

Melhor Mixagem de Som
Gravidade

Melhor Edição de Som
Gravidade

Melhores Efeitos Visuais
Gravidade

Melhor Curta Documentário
The Lady in Number 6: Music Saved My Life

Melhor Curta de Animação
Mr. Hublot

Melhor Curta
Helium

2 de março de 2014

Apostas para o Oscar 2014 - Parte 2

Melhor Roteiro Original
Por Eripetson Lucena

Spike Jonze é o favorito absoluto. Spike Jonze não é o favorito absoluto. Ele ganhou todos os prêmios até agora faltando somente o Oscar para a consagração final do seu roteiro pelo fabuloso “Her”. Ele está sendo acusado de plágio, isso mesmo, plágio pelo roteiro do seu filme. Ai, embolou o meio de campo. Se o Oscar comprar esta história do processo, o caminho possivelmente é aberto para o roteiro de “Trapaça”, o que seria uma lástima, visto que temos entre os indicados roteiros maravilhosos como o de “Nebraska” e “Dallas Buyers Club”, além é claro de “Blue Jasmine”, mas Woody Allen está fora de cogitação este ano, infelizmente. 

Vai Ganhar: “Her” (Spike Jonze), seria o certo, é o melhor roteiro, depois resolvam esta historieta de processo. 
Pode Ganhar: “Trapaça” (Eric Warren Singer e David O. Russell)
Deveria Ganhar: “Her” 

Melhor Roteiro Adaptado
Pras cucuias com as regras idiotas do sindicato dos roteiristas (que deu o prêmio a “Capitão Philips). Aqui não tem pra ninguém. É “12 Anos de Escravidão” e ponto final. O roteiro de John Ridley é um dos mais importantes escritos nos últimos tempos e tomará seu devido lugar na história do cinema. 

Vai Ganhar: “12 Anos de Escravidão” (John Ridley)
Pode Ganhar: “Philomena” (Steve Coogar e Jeff Pope) ou Capitão Philips(?). Não creio.
Deveria Ganhar: “12 Anos de Escravidão”

Melhor Filme Estrangeiro
Esta é outra categoria cujos candidatos ignorados renderiam outra linha de frente de respeito de indicados (vide “O Passado”, “Glória”, “Wadja”, etc, etc, etc.). “O italiano “A Grande Beleza” tem o favoritismo dos prêmios predecessores, mas ainda acho que o Oscar se renderá ao belga “Alabama Monroe”. E acho que está de bom tamanho. O melhor dos cinco, entretanto é o dinamarquês “A Caça”. Infelizmente, ele tem pouquíssimas chances de sair premiado.

Vai Ganhar: “Alabama Monroe” - Bélgica (este filme também tem sido chamado de “The Broken Circle Breakdown”)
Pode Ganhar: “A Grande Beleza - Itália
Deveria Ganhar: “A Caça” – Dinamarca

Melhor Documentário
Aqui o meio de campo parece esta um pouco mais embolado. “The Act of Killing” candidato da Indonésia parecia favorito absoluto até o fabuloso “A Praça”, produzido pela Netflix, ganhar o DGA, o maior termometro do Oscar. Daí parece que o premio está entre os dois mesmo. Torço particularmente pela “A Praça”, um extraordinário documento da derrubada de dois presidentes e uma junta militar no Egito, entre 2011 e 2013. 

Vai Ganhar: “The Act of Killing 
Pode Ganhar: “A Praça” 
Deveria Ganhar: “A Praça”

1 de março de 2014

"O Ato de Matar", indicado ao Oscar, abre debate sobre massacre na Indonésia

Por EFE

"O Ato de Matar", que concorre ao Oscar de melhor documentário, gerou um incômodo debate na Indonésia ao falar do massacre de meio milhão de comunistas após o golpe militar de Suharto (Hadji Mohamed Suharto, presidente da Indonésia) em 1965.

O documentário, dirigido pelo americano Joshua Oppenheimer, retrata um grupo de bandidos pagos por militares para realizar centenas de execuções na ilha de Sumatra em 1965 e 1966, em plena campanha contra a esquerda.

Após saber da indicação da Academia de Hollywood, Teuku Faizasyah, porta-voz de presidência para Relações Exteriores, criticou o filme para a imprensa local, ao afirmar que passa uma imagem distorcida do país.

"O filme retrata uma Indonésia atrasada, como nos anos 60. Isso não é apropriado, não é correto. É preciso lembrar que a Indonésia está reformada, muitas coisas mudaram", afirmou.

"Abordaremos assuntos de nosso passado obscuro, mas certamente isso não pode ser feito de forma brusca. Vai levar tempo. O público pode aceitar isso?", questionou.

"Muitos outros países têm momentos semelhantes em sua história", alegou Teuku, em referência à escravidão e ao bombardeio do Vietnã pelos Estados Unidos, e aos abusos contra os aborígenes na Austrália.

"As pessoas devem lembrar que isso aconteceu no contexto da Guerra Fria, uma guerra contra o comunismo", explicou.

O diretor Oppenheimer disse que filmou durante mais de oito anos os autores dos massacres de comunistas, muitos deles da minoria chinesa em Sumatra, Java e Bali, para expor um "genocídio" glorificado pelos vencedores, alguns dos quais hoje ocupam postos de poder no país.

"Eu não sabia se era seguro me aproximar dos assassinos, mas quando o fiz, descobri que se gabavam do que tinham feito", afirmou à Agencia Efe o diretor de 39 anos em entrevista por e-mail.

"Imediatamente relataram detalhes escabrosos dos assassinatos, frequentemente com um sorriso no rosto, diante de suas famílias e, inclusive dos netos pequenos", acrescentou Oppenheimer, que agora teme represálias caso volte ao país.

O diretor relatou que sentiu como se tivesse viajado para "Alemanha, 40 anos depois do Holocausto, para descobrir que os nazistas continuam no poder".

Proibido nos cinemas comerciais da Indonésia, "O Ato de Matar" só conseguiu ser exibido em uma conferência de direitos humanos em que Oppenheimer foi convidado de forma secreta.

No entanto, os produtores, entre eles o alemão Werner Herzog, recentemente decidiram liberar o download gratuito para a Indonésia no site oficial como um gesto para com os familiares das vítimas.

O documentário, filmado na maior parte do tempo nas exuberantes paisagens do norte de Sumatra, retrata os massacres através do lado de Anwar Congo, exibindo de forma grotesca e até surrealista como realizava as execuções até a como mostrava certo arrependimento.

Os massacres aconteceram no contexto da Guerra Fria e do temor ao avanço comunista na Indonésia, que contava com o maior Partido Comunista do mundo, depois do Partido Comunista Chinês.

Apesar das tentativas oficiais de silenciar o filme, o debate na imprensa, nos fóruns da internet e nas redes sociais.

"'(The Act of) Killing' não é o primeiro filme sobre os terríveis fatos, mas é, de longe, o mais significativo por contar a história do ponto de vista dos carrascos", disse o ativista indonésio Hilmar Farid.

Em 2012, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Indonésia (KOMNAS HAM) solicitou sem sucesso à promotoria do país que investigasse as violações dos direitos humanos, as execuções e os sequestros pelo regime de Suharto.

No entanto, um dos comissários do organismo, Imdadun Rahmat, observou que o filme não deve ser levado "muito a sério", e que o considera um perigo para o processo de "reconciliação".

"É possível contar a verdade de forma amável, sem provocar ódio", disse Imdadun, que fez parte de um dos grupos paramilitares que perseguiram os comunistas após o golpe de Suharto.

O papel dos Estados Unidos, que no início apoiou Suharto, e a separação para a minoria de origem chinesa, que ainda hoje desperta receios em parte significativa da população, são outros assuntos espinhosos em torno dos massacres em 1965 e 1966.

Apostas para o Oscar 2014 - Parte 1

Por Eripetson Lucena

Melhor Filme
Há uma sombra ameaçando o favoritismo de “12 Anos de Escravidão”, mas ainda creio que a importância histórica do filme de McQueen vai se impor ante a conquista técnica de “Gravidade”. A Academia pode, no entanto surpreender e não pulverizar os prêmios principais (já que o Oscar de Direção é tido como certo para Cuarón) como aconteceu ano passado. 

Vai Ganhar: “12 Anos de Escravidão”
Pode Ganhar: “Gravidade”
Deveria Ganhar: “12 Anos de Escravidão”

Melhor Diretor
O favoritismo de Alfonso Cuarón nesta categoria parece mesmo inabalável. É mais fácil o Oscar de filme escorregar das mãos de “12 Anos de Escravidão” que “Gravidade” perder nesta categoria. A Academia vai premiar a persistência, a perícia, o aparato do diretor em elaborar uma ficção cientifica cheia de indicadores para o futuro do gênero. 

Vai Ganhar: Alfonso Cuarón (Gravidade)
Pode Ganhar: Ninguém parece de fato ameaça-lo. É ele e ele mesmo.
Deveria Ganhar: Pessoalmente, ainda prefiro o trabalho de Steve McQueen, compreendendo, entretanto a importância das pequenas revoluções de Cuarón. 

Melhor Atriz
Aqui é prego batido e ponta virada. Desde do lançamento de “Blue Jasmine” Cate Blanchet vem se mantendo favorita absoluta na categoria e vem amealhando todos os prêmios possíveis. Ela só perde se os Acadêmicos resolverem não premiar o filme de Woody Allen, imerso em controvérsias. 

Vai Ganhar: Cate Blanchet (Blue Jasmine)
Pode Ganhar: Eu diria absolutamente ninguém até as polemicas em torno de Allen virem a tona. Fora ela, somente Judi Dench (Philomena) e Amy Adams (Trapaça) parecem estar no páreo. Pessoalmente, não acredito numa derrota de Mrs. Blanchet.

Melhor Ator
Aqui a disputa é ferrenha. Só para ter uma ideia, os que ficaram de fora (Joaquin Phoenix, Robert Redford, Oscar Isaac e Tom Hanks) formariam outra linha de indicados. Ou seja, um ano bom para interpretações masculinas. Matthew McConaughey está na dianteira da disputa e o Oscar parece ser uma bela maneira de laurear um momento impressionante do ator. Atrás dele, correm Chiwetel Ejiofor e Leonardo Di Caprio.

Vai Ganhar: Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club)
Pode Ganhar: Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)
Deveria Ganhar: Pessoalmente, não sei desequilibrar a balança quando peso os trabalhos de McConaughey e Ejiofor. Fico feliz e triste por qualquer um dos dois que ganhar a estatueta. 

Melhor Atriz Coadjuvante
Será uma lástima ver uma interpretação formidável como a de Lupita Nyong’o ser preterida por (mais uma vez) Jennifer Lawrence. Se isso acontecer, Lawrence ganhará seu segundo Oscar “nas cochas”, em detrimento de interpretações gigantescas (vide Emanuelle Riva ano passado). Não consigo conceber um amor tão grande de Hollywood por esta pequena estrela a ponto de fechar os olhos ao alcance magistral e sublime da interpretação de Nyong’o em “12 Anos de Escravidão” e conceder-lhe dois Oscars seguidos. Digo isso por que se Lupita tivesse que perder, que perdesse para interpretações melhores que a de Lawrence como todas as outras indicadas, TODAS. Que vença não somente Lupita Nyong’o, mas o bom senso.

Vai Ganhar: Lupita Nyong’o
Pode Ganhar: Jennifer Lawrence
Deveria Ganhar: Lupita, Lupita, Lupita, Lupita, Lupita, Lupita...

Melhor Ator Coadjuvante
Dificilmente haverá surpresas nesta categoria. Jared Leto caminha confiante para vencer seu primeiro (e merecedissimo) Oscar interpretando o travesti de “Dallas Buyers Club”, trabalho que poderia ser ofuscado pela fantástica atuação de Matthew McConaughey, mas que se sustenta magnificamente e confere ao filme um valor artístico excepcional (já não bastasse ser super bem escrito e dirigido). A única sombra é o também brilhante trabalho de Michael Fassbender em “12 Anos de Escravidão” que poderia muito bem ter neste ano a compensação do absurdo de sequer ter sido indicado em “Shame” do mesmo diretor. Mas, ao que tudo indica, o Oscar será mesmo de Mr. Leto.

Vai Ganhar: Jared Leto (Dallas Buyers Club)
Pode Ganhar: Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão)
Deveria Ganhar: Jared Leto.

28 de fevereiro de 2014

"Trapaça" e "Gravidade" lideram lista de indicados ao Oscar

Por AFP

A odisseia espacial "Gravidade", do mexicano Alfonso Cuarón, e o thriller "Trapaça" dominam a corrida do Oscar, com dez indicações cada.

Em seguida, está o drama "12 anos de Escravidão", com nove indicações.

Com seis indicações cada um, entre elas a de melhor filme, estão "Capitão Phillips", "Clube de Compras Dallas" e "Nebraska".

Os filmes "Ela", "O Lobo de Wall Street" e "Philomena" completam a lista das produções que concorrem à principal categoria do Oscar.

Com três indicações, "Blue Jasmine" concorre às categorias de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, com Cate Blanchett e Sally Hawkins, e de melhor roteiro, para Woody Allen.

Além de estar na disputa nas categorias de melhor filme e melhor direção, "Trapaça" teve todo o seu elenco principal indicado: Christian Bale e Amy Adams, como melhores ator e atriz, e Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, como melhores ator e atriz coadjuvantes.

"12 anos de Escravidão" também está bem na corrida, pois, além de melhor filme e melhor direção, teve reconhecidos seus principais atores: Chiwetel Ejifor, como ator principal, e Lupita Nyongo e Michael Fassbender, como coadjuvantes.

A atriz Meryl Streep novamente fez história ao ser indicada pela 18ª vez ao prêmio. Ela concorre ao de melhor atriz por sua atuação no filme "Álbum de Família". Julia Roberts disputa a estatueta de atriz coadjuvante pelo mesmo filme.

A cerimônia de entrega da 86ª edição do Oscar acontece neste domingo, dia 02 de março.

27 de fevereiro de 2014

Resenha do Filme: 12 Anos de Escravidão

Por Eripetson Lucena

É particularmente vergonhoso o fato de que nenhum diretor americano, classe não raro perdida em meio a devaneios megalomaníacos e ufanistas, nunca tenha se incomodado em contar a história de Solomon Northup. Imagino que o apelo humanitário de uma história tão poderosa, tenha afetado um diretor inglês não apenas pelo fato dele ser negro, mas pela estupefação de imaginar um mundo (não só os Estados Unidos da América) sem um filme como “12 Years a Slave”. Pois creiam, o tema da escravidão acaba de ser redefinido na história do cinema. Faz as investidas anteriores parecerem trabalho de amadores, sem muito alcance ou verossimilhança.

O nível de dramaturgia alcançado pelo filme de McQueen é extraordinário. E o tratamento dado por ele às fortíssimas sequencias de castigo é incrivelmente digno, uma vez que suavizar temas como escravidão seria incorrer em indecência e desonestidade. O que se coloca como convenção no imaginário popular, fomentado pelos livros de história ou pelas ingênuas versões cinematográficas da escravidão na América, é contestado enquanto representação por sequencias como a que a escrava Patsey, personagem de Lupita Nyong’o é barbaramente punida. Difícil de ver e de esquecer.

O que falta a maioria dos cineastas que resolvem tratar temas polêmicos é o que sobra em McQueen: senso, tato e perícia. “Hunger” e “Shame” que o digam. Parte dessa espertice é destilada nos longos planos sequencias onde os closes e a câmera fixa nos personagens por longos minutos (vide especialmente “Hunger”) acabam se tornando recurso narrativo dos mais eficientes; em “Hunger” e em “12 Years a Slave” é como se o olho mecânico fosse a própria morte a espreita, humilhando com o olhar insistente, esperando o personagem morrer de fome ou de tortura. No caso de “12 Years…” a dor retratada pela câmera de McQueen, encrudescida pelo olhar de silencioso desespero de Chiwetel Ejiofor não parece dar trégua. Há um enquadramento em particular, onde Eijofor está em primeiro plano, em pungente estupefação e chega a olhar para a câmera, fazendo um movimento com a cabeça. Remete ao que fez Paul Thomas Anderson, na última sequencia de “Magnólia” onde a personagem de Melora Walters faz o mesmo movimento (a diferença é que, se não me engano, o plano é americano), mas sorri quando olha para a câmera. Para um filme que versa sobre sucessivas tragédias de cunho pessoal, “Magnólia” acaba, com aquele sorriso de sua personagem mais emblemática, da forma mais otimista possível.

McQueen enrijece seu Solomon na dor mais primordial, exatamente nesta sequencia, quando ele contempla você e eu e se coloca como peça da inexorável escravidão. O elenco é competentíssimo. Michael Fassbender, antigo colaborador de McQueen, laureado pelo que conseguiu alcançar no estupendo “Shame”, parece encarar um papel maior que ele mesmo. Talvez o mais desafiador de todo o filme, dado a fácil armadilha do maniqueismo. Nyong’o e Eijofor desequilibram a tríade formada com Fassbender (e ainda a sutileza da crueldade da esposa criada por Sarah Paulson, que se coloca como uma sombra velada em contrapartida à malevolência gráfica de Fassbender) com dor e sofrimento extremos. Os três serão facilmente indicados ao Oscar. Nada mais justo em um filme de grandes interpretações.

Enfim, para além do aparato técnica (a fotografia é extraordinária, belíssima), “12 Years a Slave” é um triunfo pelo seu valor quase educativo, didático, como é importante o relato biográfico de Solomon Northup, no qual o filme é baseado. Ergue-se portentoso como uma extraordinária “testemunha” numa era onde o racismo ainda operacionaliza parte das querelas relacionais de nosso tempo. Um filme colossal.

Oscar 2014 só será exibido pela TNT

A TNT será a única emissora do Brasil que exibirá o Oscar 2014 ao vivo no próximo domingo, 2 de março, a partir das 20h30. A Globo, que detém os direitos de transmissão na TV aberta (e não os cede pra ninguém), decidiu que não vai transmitir o evento, porque cai em um domingo de carnaval e a emissora preferiu transmitir os desfiles das escolas de samba, exibindo um compacto dos melhores momentos na segunda à tarde.

Ellen DeGeneres será a mestre de cerimônias. Os comentários na transmissão da TNT serão de Rubens Ewald Filho, mas haverá a opção de SAP.

26 de fevereiro de 2014

Resenha do Filme: Ela

Por Eripetson Lucena

Coube a Spike Jonze entregar o que talvez se convencione chamar de o drama romântico da pós-modernidade. O cineasta sempre revestiu suas obras de um frescor absolutamente necessário ao fim de século e inicio de era, labor essencial que torna cinema uma arte relevante e isso o credencia a elaborar uma obra como “Her” sem causar maiores sobressaltos ou arroubos aos espectadores menos desavisados.

Mas, o seu novo rebento esta imbuído de uma contemporaneidade lívida, que não se alardeia pelo fato de contar a historieta de amor entre um humano e um sistema operacional, mas elabora este absurdo com uma verossimilhança espantosa e um senso de normalidade ultrajante. Sim, parece que, na imaginação e na escrita de Jonze, guardadas as devidas proporções de disparidades das mídias utilizadas, o realismo fantástico de Garcia Marques, que imaginou sua Macondo de tipos humanos e assunções aos céus encontra-se ao torpor visionário de Asimov. Claro que estou a disparatar nas comparações, mas não há como ver “Her” incólume e não tratar seu criador com superlativos.

O que é o Theodore de Phoenix senão o amalgama dos tipos pós modernos, encerrados numa solidão ancestral que somente se pulveriza diante do apelo das tecnologias, cada vez mais presentes em nossas vidas, invasivas, humanizadas, ladras convictas de nosso tempo, atenção e, por que não, segundo a tese de Jonze, do nosso amor? Pois que o absurdo da premissa de um homem tendo um relacionamento amoroso com um sistema operacional se dilui convincentemente diante dos serenos recursos narrativos que conferem esta leveza e ao mesmo tempo densidade as várias etapas do enlace de Theodore e Samantha, de forma que se torna corriqueiro esquecer quem não está dotado de corpo, sangue e órgãos na relação.

Parece que este é o (óbvio) objetivo do roteiro: humanizar a máquina. Mas será que é (só) isso? Será que o nível espetacular de entrega de Joaquin Phoenix na concepção do seu atormentado e solitário Theodore não nos informa para além do disparate de um amor por algo não humano? E o mesmo se aplica a uma performance das mais extraordinárias de uma voz, sem o apelo das fisicalidades, fazendo da atuação de Scarlet Johansson uma espécie de obelisco a ser referenciada.

A uma certa altura do romance, o Theodore de Phoenix, esmagado pela consciência do improvável relacionamento, pergunta estupefato a sua amiga vivida pela espetacular Amy Adams se nunca será capaz de viver um romance real?. Sem se sobressaltar em nenhum momento sequer ao saber do destinatário dos sentimentos do amigo, ela responde: E isto não é um romance real? Quando se coloca com esta naturalidade e distanciamento diante do absurdo em questão, a personagem atesta a teoria do texto milimétrico de Jonze de que, amor é amor, e o que operacionaliza o processo não é necessariamente o “receptáculo” mas o afeto investido. Agora ou no futuro, com máquinas hiperinteligentes ou não, a humanidade sempre vai esbarar na dor do amor (e da solidão).

“Her” acresce uma dose cavalar de afetividade ao universo fabulista de Spike Jonze, não poucas vezes afeito aos caos. Mas cá também estão presentes elementos primordiais de sua impressionante filmografia, que permitem identifica-lo como a mente inventiva que nos deu “Being John Malkovich”, mas o ex-diretor de clipes musicais nunca esteve tão introspectivo e humano, tecendo tão belamente sobre as relações trans-humanas.

24 de fevereiro de 2014

Resenha do Filme: Philomena

Por Eripetson Lucena

“Philomena”, novo trabalho do diretor inglês Stephen Frears é um filme bipartido que transita entre o apelo dramático de uma mãe em busca do seu filho e a denuncia dos abusos da Igreja católica irlandesa, protagonista de histórias funestas que, de tão cruéis soam inverossímeis. Peter Mullan já gritou do alto do seu polemico “The Magdalene Sisters”, Leão de Ouro em Veneza em 2002, as malevolências praticadas em nome de Deus que encontram ecos mais assépticos (mas não menos humanos) no filme de Frears, cujas concepções quase sempre foram muito engajadas com o cenário Britânico, desde questões tipicamente nacionais como em “The Queen”, a última vez que ele concorreu a um Oscar de melhor filme à sensíveis retratos do homossexualismo na ilha, vide “Minha Adorável Lavanderia”, acredito que a única vez que o cinema viu um Daniel Day-Lewis gay ( e convincentíssimo!). 

Um projeto desta natureza pode render filmes pavorosos. Explica-se: primeiro: a armadilha de enviesar a história no redemoinho volátil da moralidade, com mensagens dúbias de ideários cristãos que ninguém aguenta mais defender em filmes sérios; segundo: os clichês de um conto de sofrimento materno em busca de um filho perdido, que está exaurido nos filmes e que parecia sepultado pela horrível incursão de Clint Eastwood no tema em “A Troca”; terceiro: atuações caricatas que destroem roteiros bons ou muito boas que conseguem suavizar até dramalhão de TV Mexicana. 

Dizer que a atuação de Judi Dench é acertada é pleonasmo. Mas é inevitável não ressaltar momentos gloriosos do roteiro ganhando uma força primordial nas nuances da sua interpretação. Há embates delicadíssimos entre as “personas” de Philomena e do jornalista Martin, onde a simplicidade da primeira redunda quase sempre em um destilar de uma sabedoria que acaba por paralisar o personagem de Steve Coogar. E a sutileza desses momentos só são percebidas em sua riqueza e totalidade por causa da extraordinária atuação de Mrs. Dench, espinha dorsal da película. 

Há um debate em especial onde uma Philomena mobilizada pelo destino do filho nos Estados Unidos, deixa-se enredar pelas possibilidades que podem tê-lo acometido. Dentre elaborações funestas como ele ter sucumbido na guerra do Vietnan, ou virado um mendigo, ela particularmente se apavora com as chances do mesmo ser hoje um obeso dado as enormes poções servidas naqueles pais. Uma escrita tão sutil como esta encontra fotogenia vital no close do rosto sobressaltado de Judi Dench. Extraordinária. 

Outros momentos surpreendentes dão conta dos dilemas decorrentes da dor deliberada de ter cometido um “pecado” ao engravidar do namoradinho (razão pela qual isenta as malévolas freiras da culpa de haver sido separada do seu filho) em contradição ao sentimento admitido de ter gostado do ato sexual; ou mesmo da aceitação resignada da homossexualidade do filho. Benesses do roteiro, desaguando numa interpretação poderosa. Apesar da Philomena de Dench ser o fio condutor da narrativa, é o personagem de Coogar que parece ser mais afetado e perfazer mais notadamente esta trajetória da transformação. 

Este aspecto se personifica especialmente na indisposição pétrea de Martin de coadunar com a fé contida de Philomena, não redundando, no entanto na polarização maniqueísta ou mesmo na moralidade prosélita. Ele compreende que há virtudes no perdão, mesmo sem se converter à misericórdia e que há razões em se calar diante da injustiça, mesmo que ele se indigne ao extremo. Frears entrega uma direção linear, porém eficiente, principalmente com o uso eficaz do flashback, que acaba servindo bem a trama. No final, fica a nítida impressão de que alguns temas recorrentes podem ser atualizados com certo frescor em filmes como estes, que parecem não ter sido feitos pra denunciar e nem pra emocionar. Mas faz os dois com maestria.

23 de fevereiro de 2014

Resenha do Filme: A Praça

Por Eripetson Lucena

O historiador francês Marc Ferro, descrevendo as múltiplas frentes de interferência entre história e cinema coloca que os dirigentes de certa sociedade, compreendendo a função social da feitura dos filmes, tentam se apropriar desta arte para intervir na história. Em maior ou menor grau, isso sempre se verificou. As representações que a sétima arte tenta dar conta (desde que foi devidamente reconhecida enquanto tal) operam, na maioria das vezes de forma muito eficaz como instrumento de doutrinação. A tomada de consciência decorrente deste processo implica na destruição do mito da arte isenta (pois elas estão sempre sujeitas a um agendamento e não é diferente com o cinema) assim como na tentativa de apropriação dos filmes por parte das instituições consagradas.

Neste sentido, com o advento das novas e acessíveis tecnologias e com a possibilidade de se fazer filmes até mesmo através de um telefone celular, o cinema torna-se uma arma poderosa na manutenção do status-quo ou na quebra de paradigmas. O que Ferro chamou de “militante-cameraman” hoje é atualizado como “militante-usuário de um smartphone”. 

Impossível não ecoar as palavras de Ferro quando se assistia “A Praça”, explosivo documentário da Netflix, um dos finalistas na categoria de documentário no Oscar deste ano. Uma candidatura, por assim dizer, cheia de simbolismos, não somente pela atestação das teses do historiador citado, mas pelo poder de alcance extraordinário da TV, que parece se introduzir sorrateiramente no universo hermético do Oscar (uma das únicas instancias que premia filmes a não reconhecer o poder de fogo da Televisão hoje em dia). 

À máxima, “a revolução não será televisionada” acrescenta-se “...mas será vista no youtube” aplica-se ao documentário em questão. Aqui se tem a nítida impressão (e vertigem) de ser colocado através do registro de câmeras de celulares para o olho do furacão, em tempo, a Praça Tahrir, na cidade do Cairo, capital egípcia, o equivalente moderno da “Praça da Paz Celestial” na ruidosa Pequim do final dos anos 80. O povo, munido de seus gadgets, tomou o lugar em 2011, e praticamente não mais o deixou até 2013, não apenas derrubando o Presidente da época Hosni Mubarak, mas estendendo os tentáculos de suas conquistas homéricas até os anos seguintes, quando também derrubaram uma junta militar e depuseram outro Presidente. Isso, é claro, a custo de muita opressão e sangue. 

O tratamento que uma obra de ficção receberia, caso uma história poderosa como esta fosse adaptada, não diria nem infimamente das doses cavalares de realismo que este documentário carrega. A montagem sensibilíssima (e difícil, pois haveria de se construir uma linha narrativa consistente a partir de centenas de horas de gravações de celulares durante mais de 3 anos) observa a lição dourada apreendida pelos bons roteiros de cunho politico (mesmo que na ficção): humanizar as figuras. Os bons thrillers políticos fazem isso, por que sinceramente, ir ao cinema pra ser doutrinado ou ouvir discurso politico é chato e irrelevante. Daí, o doc se fragmenta em diversos núcleos de personagens, acompanhando eficientemente suas trajetórias, seja de um jovem militante idealista a um membro da radical Irmandade Muçulmana, cujo oportunismo é deflagrado em cheio pelo filme. 

O impressionante em um filme como este é a lucidez em transformar o grafismo das imagens em elementos elucidatórios da Revolução Egípcia. O diretor Jehane Noujaim, justificado pela crueza da realidade que pretende mostrar sem maquiagem, não torna os testemunhos visuais, embora que muito chocantes, em um desnecessário festival de atrocidades. Se ele lança alguma lantejoula no “modus operandi” dos manifestantes, é porque o poder que demanda do povo, é uma onda incontrolável que se avoluma em consonância com aos níveis de opressão sofrida naquele país. Neste aspecto, o documentário não é inocente, assim como nenhum filme o é, mas não pode ser acusado de leviandade ou incongruência ante as vozes que deseja amplificar.

Ao final da sessão, o espectador atento se dará conta que o último intuito de Noujaim é chocar. Ele deseja lançar luz e, claro, disso decorre posicionamentos ideológicos também. Mas não sem produzir antes conflitos e desconfortos. Este não é um dos papeis do bom cinema? Pois como (todo) produto cultural, “A Praça” se posiciona com eficácia, mas não abre mão do seu valor artístico em detrimento da panfletagem. Um belo filme.

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